Indiferença ou autoproteção?

Trabalho com o comportamento humano há bastante tempo e por esse motivo e outros mais, fui adquirindo o treino e o hábito de administrar meu julgamento para respeitar a visão de mundo das pessoas, seja ela qual for. Na maioria das vezes funciona.

No entanto, quando me deparo com pessoas indiferentes ao sentimento ou sofrimento alheio costumo ficar triste, chateada mesmo.

Entendo que a indiferença é comumente usada como um mecanismo de defesa as vezes inconsciente; um medo irracional de ser ‘contaminado’ pelo sofrimento alheio. Entendo isso. Inclusive, há profissões em que esse ‘distanciamento emocional’ é até incentivado com o propósito de promover imparcialidade e racionalidade nas decisões. Sei disso.

Por outro lado, durante esses anos trabalhando e observando comportamento, me arrisco a dizer que pessoas assim não parecem ‘sofrer menos’ e, muitas vezes, infelizmente, deixam passar a oportunidade de exercitar algo que o mundo precisa tanto: empatia.

Vou abrir um pequeno parênteses: (A palavra empatia, assim como a palava gratidão, virou um clichê de redes sociais, concordo. Mas peço um voto de confiança aqui. Não vou ficar me prolongando com explicações sobre empatia, para isso tem um vídeo já antigo, que ilustra de forma sensível e didática o seu significado.)

Minha proposta aqui é sugerir algumas reflexões sobre nossa postura diante dessa pequena palavra cuja prática pode transformar a nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor.

Se você assistiu ao vídeo provavelmente percebeu que empatia não é ‘aliviar a dor do outro’ com sua super sensibilidade e conselhos-guru. A empatia difere de conselhos e do ‘ombro amigo’ porque ela exige treino.

Empatia é conexão.

E a arte de treinar ‘conexão com o outro’ demanda que – ANTES e/ou DURANTE essa educação emocional – você aceite (e num nível mais experiente: entenda) o que a dor ou o sentimento alheio mobiliza em você.

Dá medo, né?! Eu sei, dá sim.

E sabe o que dá mais medo? Vai que a maneira que o outro vê o mundo modifique ou altere a minha maneira de enxergar as coisas?

Ou pior: vai que eu perceba que minhas certezas preciosas, minhas muralhas de sabedoria tão duramente construídas estejam um tanto equivocadas ou … ultrapassadas?

Sarcasmos a parte. Tenho consciência que não é pedir pouco refletir sobre essas questões acima.

Outro parênteses aqui: (eu disse R-E-F-L-E-T-I-R e não responder. A palavra ‘refletir’ vem do latim: RE (outra vez, novamente) + FLEXUS (dobrado) + FLECTERE (dobrar ou vergar). Percebe a diferença?)

Refletir não significa dizer sim ou não, significa conviver por um certo tempo com o desconforto da incerteza. Vai além do ‘certo’ ou ‘errado’. Refletir significa pensar com humildade suficiente para aceitar a complexidade, a crueldade e a beleza que é viver. Não há respostas simplistas que alcancem o que é certo ou errado no viver.

Refletir é treino para a vida toda, assim como a empatia.

Se a indiferença parece nos salvar do sofrimento, o treino da empatia salva nossa existência humana de uma vida sem sentido, sem tocar o coração das pessoas, sem amar e ser verdadeiramente amado – talvez odiado? Tudo bem, melhor que invisível (?) – o treino da empatia não será sempre lindo e suave, ele também pode ser triste e difícil. Não dá pra adivinhar.

Com certeza, a empatia não vai nos imunizar do sofrimento, isso aliás, é uma baita prepotência, pois somos humanos. No entanto, a empatia pode sim dar mais significado para nossa vida, enquanto ela durar.

Se para você isso é pouco e prefere optar pela indiferença, está tudo bem (de verdade!). Isso é apenas uma reflexão, com uma pitada de ponto de vista.

2020-09-01T16:15:08-03:00

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